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A sétima arte movida a energia solar

Placas de captação já garantiram exibições de cinema para mais de 70 mil em 215 cidades.

Por Edison Veiga

Que cinema é magia, poucos duvidam. A tela grande, o escurinho, os mundos que se contam em som, em imagem, em movimento. O Cinesolar é tudo isso. E um pouco mais. Porque a magia do cinema se realiza sem rede elétrica. A essência do projeto, que já levou a telona para mais de 70 mil pessoas em 215 cidades do País, desde 2013, são placas que captam energia solar e garantem as exibições.

“Já estivemos em lugar sem luz elétrica. E já houve caso em que houve blecaute na cidade toda durante o filme, mas continuamos a exibição numa boa”, conta a produtora e atriz Gabriela Veiga, de 34 anos, uma das cerca de 20 pessoas que integram o projeto.

Na semana passada, o Estado acompanhou um dia inteiro de atividades do Cinesolar, em uma programação no CEU Caminho do Mar, no bairro do Jabaquara, zona sul de São Paulo.

Tudo começa na sede da Brazucah Produções, na Lapa, zona oeste de São Paulo. É ali que fica a parafernália que faz o cinema acontecer. Escalados para a tarefa do dia estavam, além de Gabriela, a produtora Andressa Romanek, de 33 anos, a arte-educadora Julia Gallego, de 25 anos, o técnico e educador ambiental Thiago Santos, de 30 anos, e o educomunicador André Ramiro, de 23 anos.

Partimos em uma van que está com o grupo desde o ano passado. O painel acusa que já são 35.898 km rodados. Uma outra, que está desde o início, já passou da casa dos 80 mil. Nem bem estacionamos no pátio do CEU, pouco após as 12 horas, crianças curiosas já se aproximavam. Quando Thiago abriu a porta traseira e começou a tirar 80 cadeiras, 20 banquetas, equipamentos de som, projetor, a tela, as perguntas não paravam de brotar. “Tio, o que é isso?”, “Tem internet aí dentro?”, “Vai funcionar alguma coisa aqui fora?”, “A gente pode ver?”.

Em pouco tempo, notam a imensa placa solar que fica sobre a van. De novo um “tio, o que é isso?”. “Funciona à noite?”, “Faz o carro andar?”, “É de verdade mesmo?” Thiago responde tudo calmamente. A equipe já parece muito acostumada a essas perguntas (Aliás, a placa solar não funciona à noite, mas baterias armazenam a energia que é utilizada para a exibição do filme; e, não, essa energia não é utilizada para o veículo se locomover).

Enquanto tudo era montado no pátio externo, uma outra atividade cativava 25 crianças e adolescentes. Trata-se da Oficinema, misto de lições ambientais com brincadeira em que a turma, dividida em grupos, produziu um pequeno curta-metragem - exibido à noite no telão.

Youtuber, a estudante Kauane Amorim, de 13 anos, era das mais animadas. “Eu sempre gostei de aparecer, de fazer teatro”, disse. “Sempre tive vontade de aparecer em um filme. Por isso achei bem legal”, contou o estudante Jonatas Santos, de 14 anos.

E brota o cinema

A experiência em São Paulo não é igual à de cidadezinhas pequenas, onde muitas vezes nem há sala de cinema. “A surpresa e a emoção são maiores lá”, resume Thiago. Mesmo assim, ver uma sala de cinema brotar onde antes era só um pátio tem seu fascínio. Na tela, após seleção de curtas, foi exibido o road movie alto astral Colegas, filme de 2012 dirigido por Marcelo Galvão - na programação, são sempre filmes nacionais. 

Fundadora da Brazucah, Cynthia Alario conta que a ideia do Cinesolar surgiu depois que ela teve contato com um projeto semelhante na Holanda, em 2010. “Achei que era a cara do Brasil”, diz. “Fizemos uma estação móvel de arte, sustentabilidade, cinema e cultura”, define.

Matéria originalmente publicada no jornal O Estado de S. Paulo