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Paris limpará rio Sena até a Olimpíada de 2024, diz autoridade da água

Engenheiro diz que período é curto, mas torná-lo apto a atleta virou compromisso

Fabrício Lobel - Folha de S. Paulo

Na segunda metade do século 19, Napoleão 3º decidiu transformar Paris. As obras abriram ruas, avenidas e bulevares que margeiam o rio Sena. Mas a transformação não ficou apenas na superfície e o sistema de esgoto da cidade também foi criado.

A ideia era construir redes de túneis por onde os dejetos das casas e a água das chuvas pudessem escoar. 

Mais de um século e meio depois das obras que mudaram a cidade, Denis Penouel, 56, tem a nova missão de transformar um símbolo parisiense. A meta é tornar o rio Sena limpo ao ponto de receber competições esportivas na Olimpíada de Paris, em 2024. 

"É um período curto, mas se transformou em um compromisso", conta o vice-diretor geral da autoridade parisiense para a água, Siaap. Antes de vir ao Brasil para participar de um painel do 8º Fórum Mundial da Água, Penouel falou à Folha. 

Folha - Qual a situação atual do rio?

Denis Penouel - O rio Sena chegou aos anos 1970 muito poluído e tinha apenas três espécies de peixes. Hoje, depois de muito trabalho e muito dinheiro com estações de tratamento, são 33 espécies no rio da cidade. Ainda assim, pelos padrões europeus, não se pode nadar no rio ainda.

Qual é o plano para a Olimpíada de Paris?

O projeto é que todo o rio se torne apto a receber competições de nado durante os jogos. A ideia é que o triatlo e a maratona aquática aconteçam no rio, no meio da cidade de Paris, em 2024.

No caso do Rio, um dos projetos olímpicos era despoluir a baía de Guanabara para as provas de vela. Mas nós não conseguimos atingir esse objetivo, pois não conectamos a rede de esgoto com as estações de tratamento. 

Em Paris, essas conexões já estão feitas. O que faremos é tratar a água da chuva e o esgoto antes que ele chegue ao rio Sena. Por um lado, nós temos que aumentar ainda mais a qualidade da água que sairá das estações de tratamento de esgoto e retornarão ao rio, incluindo o tratamento por raios ultravioleta.

Outro problema é com os dias de forte chuva, quando parte do esgoto vai para o rio. Não queremos mais isso. A ideia é criarmos piscinões que recebam esse volume de água.

Todos os barcos no rio que param nos portos ao longo de Paris também ajudam a poluir o rio. Queremos equipar os portos com sistemas de coleta do esgoto dos barcos. Uma descarga de um banheiro, com cinco litros de água, pode poluir 50 mil litros de água no rio.

As medidas são suficientes para que se consiga nadar no Sena?

Não. É preciso ter um olhar mais amplo para o urbanismo. É importante ter uma infraestrutura verde, para que a água da chuva infiltre no solo e não vá para o nosso sistema de esgoto.

Um dos pontos é melhorar a captação de água da chuva e atribuir uso a ela.

Nós devemos assumir uma nova cultura na construção de nossos prédios. Isso significa que arquitetos, paisagistas, urbanistas pensem seus projetos levando em conta a necessidade de uma cidade mais verde. E assim, possamos mudar a cultura da cidade, que acaba impactando em outros benefícios, como a redução das temperaturas máximas e melhoria da paisagem.

Esse deve ser um legado da Olimpíada para a cidade?

Sim, esse tipo de intervenção pode nos ajudar a enfrentar as mudanças climáticas em Paris. Até porque, a expectativa é de que a cidade passe a ter temperaturas mais altas e o nível do rio fique mais baixo [o que dificulta a diluição de poluentes].

Que tipo de dificuldades o projeto encontra, visto que Paris é uma cidade antiga?

O sistema de esgoto e de escoamento da água da chuva da cidade foi implantado por Napoleão 3º no século 19. 

Já no começo do século 20, o grande volume de água dentro desse sistema passou a extravasar para o rio Sena e o rio passou a ser um esgoto a céu aberto. O crescimento industrial também só deteriorou a qualidade da água.

Desde a década de 70, a situação do rio melhorou. Mas hoje Paris é uma das cidades mais adensadas no mundo, o que dificulta o trabalho.

Paris conseguirá cumprir sua meta a tempo da Olimpíada?

Estamos agora desenvolvendo um Plano Diretor de intervenções para receber os jogos. E uma das metas é de que o rio esteja apto para se nadar. É um período curto, mas se transformou em um compromisso.

O estado de São Paulo também luta há anos para despoluir seu principal rio, o Tietê. Qual seria a sua sugestão para que a cidade atinja esse objetivo?

O primordial é ter um plano diretor que envolva a autoridade sanitária e as cidades do entorno do rio. É preciso também buscar um equilíbrio na tarifa, para garantir a qualidade da água. Ou seja, o valor pago na tarifa tem que custear não só o tratamento da água como o esgoto que você gerou. 

Recentemente a Sabesp [companhia paulista de saneamento] disse que estava pensando em usar a queima de lixo para gerar a energia. A França tem algo parecido, certo?

Sim, esse é um dos temas que queremos discutir com outros países e cidades no Fórum Mundial de Água.

Em Paris, existe outra autoridade pública que toma conta do lixo. E nós trabalhamos juntos numa joint venture para que futuramente as estações de tratamento de esgoto possam produzir energia a partir do lodo que é gerado do processo. Essa abordagem multissetorial é muito interessante para nós.

Projetos do tipo ainda encaram resistência sob o argumento de que há riscos há poluição do ar. Para vocês, isso é um problema?

Na Europa, existe uma regulação restrita sobre o tema. Primeiro, existem programas de prevenção de geração de lixo, depois temos programas de reciclagem e reúso de materiais. Desde que você tenha desempenhado bem todas essas etapas, você conquista o direito de incinerar os resíduos. Além disso, é necessário tratar o gás gerado. E, nesse ponto, a tecnologia faz com que o processo seja limpo. 

Em Paris, existe a necessidade de um sistema de aquecimento das casas. E 40% da energia desse sistema vem da queima de resíduos. Essa não é uma necessidade em São Paulo, por exemplo, mas a energia gerada poderia ser convertida em eletricidade.

RAIO X

Idade
56

Formação
Engenheiro civil

Experiência
Mais de 30 anos trabalhando no ramo de tratamento de água, esgoto, resíduos sólidos e geração de energia em empresas públicas e privadas

Cargo
Vice-diretor geral da autoridade de saneamento de Paris

Matéria publicada na Folha de S. Paulo
 

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