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Países chegam a acordo global para reduzir gases de efeito estufa

Negociação, anunciada no sábado, é o primeiro teste da boa vontade para tentar brecar as mudanças climáticas

Giovana Girardi - O Estado de S. Paulo

Um acordo internacional fechado na madrugada de sábado, 15, para a redução de emissões de um poderoso tipo de gás de efeito estufa pode ajudar o evitar um aquecimento de até 0,5°C na temperatura média global até o final deste século.

Em encontro em Kigali (Ruanda), 197 países (Brasil incluído) decidiram reduzir as emissões dos hidrofluorcarbonetos, ou simplesmente HFCs, gases usados em refrigeradores e aparelhos de ar condicionado e que também são conhecidos como superpoluentes por, sozinhos, terem uma capacidade enorme de aquecimento. De acordo com especialistas, reduzir o seu uso é o meio mais rápido para diminuir o aquecimento global. 

Apesar de ocorrerem em uma quantidade relativamente pequena na atmosfera – a concentração de gás carbônico (CO2), o gás estufa mais comum é muito maior –, ele aprisionam milhares de vezes mais calor.

A decisão ocorreu como uma emenda ao Protocolo de Montreal, que em 1987 tinha estabelecido o fim do consumo de gases que destroem a camada de ozônio. Foram banidos, por exemplo, os CFCs (clorofluorcarbonetos), que também eram usados em aparelhos de ar-condicionado, geladeiras e sprays.

O acordo é considerado um dos mais bem-sucedidos na questão climática, por levar a uma redução de 98% na produção de gases nocivos à camada que protege o planeta da entrada dos raios solares mais nocivos e que são causadores de câncer de pele. Hoje a camada de ozônio voltou a se recuperar.

Os HFCs, que ficaram liberados, não causam esse problema, mas logo se viu que eles funcionavam como poderosos aquecedores. E sua concentração vem crescendo a taxa de 10% ao ano, principalmente por causa de um aumento da demanda, nos últimos anos, por resfriamento – em um círculo vicioso, quanto mais o mundo aquece por conta desses gases, mais ainda eles são consumidos.

Metas

Após duas semanas da conferência das partes do Protocolo de Montreal, todos os países se comprometeram a agir para reduzir suas emissões de HFCs. Diferentemente do acordo mais amplo de Paris, este é legalmente obrigatório. 

Ele limita e reduz o uso de HFCs em um processo gradual que começa em 2019 com a redução por parte dos países desenvolvidos, incluindo os Estados Unidos. Mais de 100 países em desenvolvimento, como a China, o maior poluidor mundial, começam a adotar medidas em 2024, quando o consumo de HFCs deve atingir seu pico e ser congelado.

Um pequeno grupo de países que inclui Índia, Paquistão e alguns Estados do Golfo Pérsico pressionou e conseguiu adiar o início das ações para 2028, alegando que suas economias precisam de mais tempo para crescer. O objetivo é que até 2047,  o consumo total  tenha caído de 80% a 85% em relação aos valores atuais.

A medida é considerada isoladamente a mais efetiva para a contenção do aquecimento global e é a primeira grande ação desde que foi fechado, no ano passado, o Acordo de Paris, que prevê que os países atuem para conter o aumento da temperatura global a bem menos de 2°C até o final do século, com esforços para ficar em no máximo 1,5°C.

“Quanto mais rápido nós agirmos, mais baixos serão os custos e mais leve será o impacto ambiental sobre nossas crianças”, declarou o presidente de Ruanda, Paul Kagame. “Não é sempre que temos a chance de ter uma redução de 0,5°C tomando um único passo juntos como países”, comemorou o secretário de Estado dos Estados Unidos, John Kerry.

O acordo corresponde a "interromper por mais de dois anos toda a emissão de dióxido de carbono de combustíveis fósseis no mundo", disse em comunicado David Doniger, diretor do programa de clima e ar limpo no Conselho de Defesa de Recursos Naturais.

HFCs foram introduzidos nos anos 1980s como um substituto de gases que destroem a camada de ozônio. Mas os riscos aumentaram com o crescimento das vendas de aparelhos de ar condicionado e refrigeradores em países emergentes como China e Índia. / Com Associated Press.

Matéria publicada no jornal O Estado de S. Paulo.