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"O carro está morto nas cidades", diz especialista espanhola em mobilidade

POR RODRIGO RUSSO - FOLHA DE S. PAULO

"O carro está morto nas cidades." Esse é o diagnóstico da espanhola Anna Ferrer, 59, especialista em mobilidade urbana e segurança viária.

Diretora do extinto Observatório Nacional de Segurança Viária da Espanha, Ferrer foi peça-chave no desenho e implementação de políticas que ajudaram seu país a reduzir as mortes no trânsito em mais de 60%: de 5.400 por ano, caíram para patamar próximo de 2.000 por ano.

Para Ferrer, "não é fácil, mas é possível fazer isso também no Brasil". A espanhola deu mais detalhes do que é preciso para avançar no tema em entrevista à Folha nesta sexta-feira (12), antes de participar de debate organizado pela ANTP (Associação Nacional de Transportes Públicos), parte do 1º Festival Brasileiro de Filmes Sobre Mobilidade e Segurança Viária.

Folha - A senhora é responsável por ótimos resultados na redução de vítimas fatais na Espanha. O que é preciso fazer nesse tema?

Anna Ferrer - Não é fácil, mas é possível fazer muito. Medidas que reduzam a velocidade têm impacto na redução de mortes.

Fazer controles para detectar motoristas alcoolizados, implementar radares e estimular o uso de cinto de segurança e capacete são outras políticas necessárias.

Não tínhamos radares na Espanha, dependíamos apenas da polícia. Triplicamos o número de blitze contra quem bebia e dirigia, de modo que ou você, ou alguém de sua família, ou um amigo tivessem passado por essa experiência, para mostrar que estávamos alertas.

Mas, antes de tudo isso, o fundamental é passar informações para os cidadãos. A segurança é uma decisão do condutor. Desde a administração pública até o condutor, a cadeia precisa conhecer o máximo de evidências científicas. Claro que haverá debate, mas oposição por oposição é carregar mais mortes no trânsito.

Reforço a importância de convencer os cidadãos. Muitas vezes os políticos, amparados por técnicos, sabem a solução e tentam aplicá-la, mas falham, porque, no fim, quem tem que tomar a decisão certa é o cidadão.

São Paulo tem registrado redução significativa no número de mortos no trânsito. Alguns especialistas dizem que isso é reflexo da crise econômica, que retira carros de circulação. Qual a sua avaliação?

É claro que, com menos gente se deslocando, cairá o denominador de pessoas que podem morrer. Mas creio que o exemplo da Espanha é bastante ilustrativo.

Nós obtivemos as maiores quedas no número de vítimas fatais em plena fase de crescimento econômico. Depois que o Observatório foi extinto, e já durante a forte crise, não houve redução, mas estabilidade. As medidas que adotamos, e que foram deixadas de lado por decisão política, são muito importantes.

Em São Paulo, alguns candidatos à prefeitura prometem reverter a decisão de reduzir os limites de velocidade. O que a senhora acha disso?

Não há estudos, mas estou convencida de que quando as autoridades anunciam um aumento de velocidade, mesmo que em algumas vias, isso faz com que as pessoas dirijam mais rápido no sistema como um todo. E está claro que velocidades maiores levam a mais mortes no trânsito, porque as chances de sobrevivência em atropelamentos diminuem.

É preciso dizer a esses candidatos, portanto, que essas mortes serão culpa deles.

A senhora já andou por São Paulo? O que achou?

Andei um pouco. É uma cidade enorme! Quando cheguei ao aeroporto, pouco antes das 6h da manhã, o taxista me disse que dei sorte, porque logo mais eu ficaria parada duas ou três horas no trânsito da cidade.

Vi muitos veículos, muitos. Tive um encontro com o prefeito Fernando Haddad e notei que está realmente preocupado com o assunto da mobilidade. O carro está morto nas cidades. Não pode mais ser o protagonista das políticas. Esse papel agora é do transporte público, é da proteção aos pedestres. Em Barcelona, por exemplo, temos o objetivo de chegar a 2020 com 20% a menos de veículos privados nas ruas.

Matéria publidada na Folha de S. Paulo.