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Jovens na COP 21 se revoltam com a lentidão das negociações

Presentes nas plenárias para apresentar suas demandas aos negociadores, os jovens não se sentem ouvidos.

Por André D'Elia

A quarta jornada da COP 21 em Paris foi marcado por eventos do Dia dos Jovens e Futuras Gerações. Este é o momento na Conferência do Clima em que os jovens ganham mais espaço e oportunidade para apresentar suas demandas e cobrar avanços dos negociadores.

Jovens de diversos países lotaram o enorme auditório Observer Room 2  para levantar a voz e mostrar sua cara à COP. Africanos, asiáticos, europeus, australianos, canadenses, brasileiros... Parecia que todas as cores e culturas do mundo estavam ali representada. A secretária executiva da UNFCCC, Christiana Figueres, abriu o evento inaugural do dia dizendo: “Está é a COP da sua geração”. De fato, um sentimento de pertencimento e assunção de responsabilidade parecia permear todas as falas que viriam a seguir – afinal de contas, quem vai pagar o alto preço das mudanças climáticas são os jovem e as futuras gerações.

Aos poucos, porém, o sentimento de pertencimento foi se transformando em revolta: “Dizem que essa COP 21 é o começo de um grande acordo global, mas se é o começo, para que serviram esse últimos 21 anos?”. Toneladas de questionamentos sinceros e plausíveis eram despejadas nos microfones. Era como se os jovens quisessem tomar o poder naquela mesma hora e resolver o impasse deste complexo acordo global. Infelizmente, isso não é possível no momento: as estruturas políticas parecem engessadas, imutáveis, e seus atores, insensíveis. Simbolicamente, o sistema de som do evento funcionava via fones de ouvido, de modo que se você tirar o fone fica parecendo que apertaram a tecla “mute” na pessoa que está falando. Tive a estranha sensação de que nenhum negociador, ministro ou diplomata estivesse ali ouvindo. Para nossos líderes mundiais, os jovens estavam com a tecla “mute” ligada.

A última pessoal a falar foi a jovem cineasta canadense Slater Jewell-Kemker, diretora do filme “An Incovenient Youth” (Uma Juventude Inconveniente), ainda em produção. Antes de sua fala, podemos sentir um gostinho de como será seu longa-metragem, que ela começou a filmar quando tinha apenas 12 anos de idade. A sequência apresentada durante o evento mostra a fala inflamada de uma garotinha sobre um palanque improvisado. “Se os nossos líderes não estão preparados para liderar, então temos que trocar esses líderes”. O filme é repleto de protestos e depoimentos de jovens de todo o mundo.

Também na quinta, no meio da tarde, os jovens presentes na COP 21 fizeram uma ação marcante. Dezenas de pessoas caídas no chão. “Mortas”. Um protesto simples e poderoso, que evidencia nossa fragilidade diante do desafio das mudanças climáticas. “Esse ato mostra que, no futuro, todos estaremos mortos se a sociedade de hoje continuar seguindo o caminho do aquecimento global”, disse Raquel Rosenberg, coordenadora da ONG Engajamundo. E lá estava Slater, registando tudo com sua câmera de mão. Mais uma cena para seu filme.

No pavilhão da Alemanha na COP 21, tivemos um dos debates mais interessantes que vi nesta Conferência. Lá estavam Slater, Bianca Jagger (ex-esposa do roqueiro Mick Jagger e reconhecida ativista pelo clima), Kumi Naidoo (líder do Greenpeace International) e Fernando Meirelles (cineasta brasileiro, diretor do filme “Cidade de Deus”, de 2002).

Bianca, que já é avó, participou de todas as COP’s até o presente momento. Para ela, todas foram inúteis, e ela não se conforma com isso: “Como não pensar nos nossos filhos e netos? A nossa geração pode desfrutar e viver em mundo tão belo, como podemos privar os nossos filhos de fazer o mesmo?”.

Kumi Naidoo foi taxativo. “Os nossos líderes mundiais não estão preparados para colocar o interesse da sociedade e das pessoas à frente dos interesses de uma mão cheia de corporação poderosas que estão nos prejudicando”, disse a principal liderança internacional do Greenpeace. “Essa história de 2 graus Celsius me agride: toda vez que vejo isso nesta conferencia, isso me agride, porque um acordo que garante apenas 2 graus vai salvar a Europa, parte da América e do Hemisfério Norte. Com 2 graus, estamos mortos em países que são ilhas e em alguns países subdesenvolvidos na África. Mortos!”

O trecho do filme de Slater mostrou o presidente das Maldivas implorando por um acordo melhor e imediato, caso contrario, seu país será submerso ainda esse século.

Fernando Meirelles parecia um moleque levado colocando mais lenha na fogueira. No debate, ele contou sobre seu novo projeto: uma série para televisão em que os protagonistas são ativistas ultra radicais da causa ambientalista. “Temos que contar uma boa história para atingir também o público que não é ambientalista, essa série vai ser emocionante! Os caras querem salvar o planeta. Se tem alguém na frente? Eles sequestram. (na ficção) Vamos cruzar essa linha que Greenpeace nunca cruzou.”

O auditório ficou estasiado com a ideia, todos remexiam na cadeira. Será que a arte pode salvar o mundo!?

A mesa de debate ainda estava pegando fogo quando sai para participar do debate do filme “A Lei da Água”, na Fundação Jean Jaurès. Este é um filme para o qual dediquei dois anos de minha vida, com a esperança de que o Supremo Tribunal Federal ainda possa intervir nos retrocessos promovidos pelo novo Código Florestal. Em Paris, tive a oportunidade de mostrá-lo duas vezes, graças ao trabalho e empenho da Fundação SOS Mata Atlântica e da ONG Brasil.Fr. Um dia antes, no Pavilhão da Água na COP 21, durante a primeira exibição, pudemos contar com a presença do fotógrafo Sebastião Salgado, que ficou muito tocado pelo filme e contou um pouco da sua juventude em Minas Gerais, quando o Rio Doce era fundo, navegável, belo...

A nossa geração já não possui um rio Doce tal como Sebastião teve. O Rio Doce mudou. Morreu.

Espero que a COP 21 realmente produza um acordo corajoso, que ajude nossa juventude e as futuras gerações a combater as mudanças do clima. O tempo está acabando e a humanidade parece estar em uma bicicleta sem freio, descendo uma ladeira íngreme, a poucos metros de uma parede sólida, firme e impiedosa.

Matéria originalmente publicada no portal da Revista Época