Início > Noticias > Fórum paralelo cobra olhar no acesso à água e menos sobre os lucros

Fórum paralelo cobra olhar no acesso à água e menos sobre os lucros

8º Fórum Mundial da Água acontece em Brasília ao longo de toda esta semana 

Fabrício Lobel - Folha de S. Paulo

A água deveria ser um direito universal, mas tem se tornado um produto de mercado. Essa é a premissa do Fama (Fórum Alternativo Mundial da Água) que ocorre nesta semana em Brasília, em oposição à organização do 8º Fórum Mundial da Água, também na capital federal.

Evento do Fórum Alternativo Mundial da Água, paralelo ao evento oficial sobre o tema - Divulgação

A realização do evento é tocada por ambientalistas, sindicalistas e militantes que consideram que o fórum oficial não contempla as preocupações da população mais carente no acesso à água. 

“O controle da água que tenha como perspectiva gerar lucro não garante o princípio da água como direito fundamental. São visões incompatíveis. A universalização do acesso à água e ao saneamento não será possível se o setor estiver sobre o controle do capital privado e sua visão de lucro”, diz Edson Aparecido da Silva, sociólogo e um dos coordenadores do Fama.

Para ele, o patrocínio de gigantes da indústria alimentícia ao fórum oficial só reforça a visão de que a água é uma moeda de troca. Ambev, Nestlé e Coca-Cola, por exemplo, são patrocinadoras do evento. No Brasil, estima-se que mais da metade da água consumida pela indústria é destinada ao ramo alimentício.

Durante a tarde desta segunda-feira (19), sindicalistas, movimentos de esquerda em geral e grupos indígenas assistiam a debates e encenações que criticavam indústrias multinacionais do ramo alimentício e mineradoras. 

Houve críticas, por exemplo, à Samarco e à Vale pelo desastre de Mariana (MG)

Outro tema que será abordado pelo fórum alternativo é a privatização de empresas de saneamento no país. O assunto ganhou força em 2016 quando o governo federal incentivou que as empresas estaduais de saneamento fizessem concessões ou parcerias com a iniciativa privada, em troca de recuperação financeira. No fim daquele ano, 18 estados chegaram a demonstrar interesse abrir suas empresas de saneamento. De lá para cá, muitos voltaram atrás ou paralisaram as concessões.

Além disso, o Planalto estuda editar uma medida provisória que deve mudar toda a estrutura da regulação do saneamento no país, aumentando a participação da iniciativa privada. Diversas entidades do setor do saneamento se colocaram contrárias aos primeiros textos propostos pelo governo federal. 

A principal crítica é que a reforma no setor poderia colocar os contratos de municípios mais rentáveis nas mãos da iniciativa privada, deixando as companhias estatais sem recursos para investimentos nos menos rentáveis e onde a demanda por saneamento é maior.

Benedito Braga, presidente do Conselho Mundial da Água, órgão que organiza o Fórum Mundial da Água, diz que o evento oficial é uma plataforma sem ideologia específica e poderia abarcar inclusive as discussões propostas pelo fórum alternativo. O fórum oficial diz ainda que um dos pilares de sua organização é a participação de ONGs, representantes da sociedade civil que discutirão, entre outros temas, questões de gênero, de juventude e de direitos humanos associadas ao consumo da água.

Para organizadores do fórum alternativo, porém, o espaço dedicado a uma visão social do acesso à água é ainda pequeno. Além disso, eles reclamam do alto valor dos ingressos do fórum oficial, que variam de R$ 160 a quase R$ 3.000, a depender do tipo de entrada e dias de visitação.

O Fama deve ainda organizar uma passeata na próxima quinta-feira (22), no dia mundial da água.

Matéria publicada na Folha de S. Paulo