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Energia caseira

Em 25 anos, consumidores gerarão em casa energia equivalente a seis Itaipus; principal fonte será a solar.

Por Filipe Oliveira

Cerca de 700 telhados de residências, comércios ou indústrias no Brasil têm um painel solar que gera energia para o consumo local. E, quando sobra, ela pode servir a outros consumidores.

Os donos desses raros painéis são pioneiros em uma tecnologia que pode virar corriqueira no país.

O estudo "New Energy Outlook 2015", da consultoria Bloomberg Energy Finance, aponta que, daqui a 25 anos, um quinto de toda a capacidade instalada brasileira não virá de usinas, mas da chamada geração distribuída, produzida por consumidores principalmente a partir de painéis fotovoltaicos.

A análise considera que a capacidade instalada no Brasil, hoje de 132 gigawatts (GW), será de 383 GW. Do total, cerca de 80,5 GW virão dessa nova fonte.

A energia gerada por consumidores será equivalente a quase seis Itaipus, usina que tem capacidade de 14 GW. Até lá, essa modalidade de geração receberá US$ 93 bilhões em investimentos no Brasil.

Segundo Lilian Alves, analista da Bloomberg para a América Latina, as previsões são feitas a partir de uma avaliação sobre qual matriz energética fará mais sentido econômico em cada país.

A energia solar, ainda considerada cara, deve ficar mais competitiva. Espera-se uma redução de 50% em seu custo devido à maturação da tecnologia e ganhos de escala.

O primeiro passo para que a geração distribuída se tornasse realidade foi dado em 2012, quando a Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica) editou a resolução normativa 482, que estabeleceu as regras para a micro e a mini geração de energia (com potência instalada de até 100 KW e entre 100 KW e 1.000 KW, respectivamente).

A resolução permite que a energia gerada em momentos de menor consumo seja inserida na rede e dê origem a créditos.

Assim, uma casa que usa menos energia durante o dia envia o excedente produzido enquanto o sol bate em seu telhado para a distribuidora de sua região. À noite, quando o consumo sobe, a energia que seus moradores gastam tem desconto equivalente à quantidade de energia que havia sido enviada à rede.

A professora de enfermagem Isabel Cruz, 56, está entre as que já começaram a sentir no bolso o impacto da microgeração de energia.

Ela conta que, até a instalação de um painel solar com 10 placas fotovoltaicas em sua casa, no Rio, pagava uma conta mensal que variava entre R$ 300 e R$ 400. Em julho, pela primeira vez ela ficou feliz ao receber a conta de luz, que caiu para R$ 80.

Cruz conta que, para a instalação, usou uma reserva com a qual pretendia comprar um carro, no valor de R$ 38 mil. Segundo ela, ao contrário do veículo, o painel solar não perde valor ao sair da loja. Pelo contrário, dará ganho financeiro devido à economia que proporciona.

Investimento em painel solar compensa em 23 Estados, diz consultoria

A geração solar em casa e e em pequenos comércios já é uma boa opção de investimento em pelo menos 23 Estados, segundo cálculos da consultoria em energia PSR. O investimento só não compensa no Amazonas, em Roraima e no Amapá.

Rafael Kelman, diretor da consultoria, diz que o retorno financeiro da instalação da placa solar (resultado da economia na conta de luz) pode ser comparado ao de outras aplicações seguras, como o Tesouro Direto.

Os painéis fotovoltaicos se pagam em um período que varia entre 6 e 12 anos, dependendo principalmente da tarifa praticada na região, diz Rodrigo Lopes Sauaia, diretor-executivo da ABSOLAR (Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica).

Os equipamentos têm vida útil de 25 anos e o custo para instalação parte de R$ 15 mil, de acordo com Paulo Doneux, sócio da empresa Jovic.

Nessas condições, é possível instalar seis painéis de 250 W de potência. Com isso, se pode atender uma casa com consumo aproximado de 150 Kwh por mês, diz.

Mas o custo para a compra dos equipamentos e a falta de linhas com juros baixos para seu financiamento são consideradas barreiras para o crescimento do setor.

Entre as opções para o financiamento dos painéis está o parcelamento via Construcard, cartão da Caixa para a compra de material de construção. A taxa de juros é de 1,85% ao mês e o financiamento pode ser de até 240 meses.

Como alternativa para atrair mais clientes, a SolarGrid financia por conta própria os projetos de quem a contrata. Henrique Loyola, um dos sócios da empresa, afirma que as condições de pagamento são específicas para cada cliente. A empresa começou a fazer instalações em fevereiro e, até agora, foram cerca de 50.

"Esse mercado começou a crescer em países como os EUA quando as pessoas tiveram possibilidade de financiar seus projetos", diz.

Matéria originalmente publicada no jornal Folha de S. Paulo