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Empresas darão força a acordo climático global

Entrevista com Rajendra Pachauri - Para chefe do Painel do Clima, setor privado vai perceber que o custo da inação contra o aquecimentos é alto demais.

Por MARCELO LEITE, da Folha de S.Paulo.

O engenheiro eletromecânico indiano Rajendra Kumar Pachauri, 74, ganhou fama mundial à frente do Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima (IPCC, na abreviação em inglês), que preside há 12 anos. Boa fama e má fama, que ele no entanto está conseguindo superar.

O auge veio em 2007, quando ele recebeu o Prêmio Nobel da Paz em nome dos milhares de especialistas que compõem o painel reunido pela ONU. Foi no mesmo ano em que se publicou o "Quarto Relatório de Avaliação" (AR4) do IPCC.

Dois anos depois, o AR4 enfrentou um forte questionamento da previsão de que as geleiras do Himalaia se derreteriam até 2035. Reconheceu o erro, mas sua reputação saiu arranhada. Depois veio o escândalo do "climagate": vazaram para a imprensa mensagens eletrônicas entre cientistas do ramo que davam a impressão de conluio entre eles para pintar um quadro mais alarmante sobre o futuro do clima.

Pachauri sobreviveu a tudo isso e comandou o lançamento, no ano passado, do quinto relatório (AR5). Reconhece, porém, que a controvérsia contribuiu para melhorar os controles no IPCC.

Hoje, Pachauri considera que o ímpeto para combater os efeitos da mudança do clima depende menos dos pesquisadores e dos governos centrais e mais dos empresários e governos locais. "Não acredito que um pacto internacional seja o único meio com o qual possamos e devamos combater as mudanças climáticas."

Leia trechos da entrevista que Pachauri deu por escrito após participar de um seminário da Fundação Ford no Rio de Janeiro.

Folha - Quais são suas expectativas para a cúpula do clima de Paris em 2015? Existem condições econômicas e políticas para os países que mais emitem gases-estufa se comprometerem a fazer reduções significativas?

Rajendra Pachauri - Não posso me pronunciar quanto à Conferência de Paris, mas posso afirmar que as estimativas dos custos da mitigação das emissões de gases-estufa variam muito.
Nos cenários do tipo "business as usual" [mais do mesmo], a economia cresce entre 1,6% e 3% ao ano. A mitigação ambiciosa reduziria esse crescimento em cerca de 0,06 ponto percentual, o que parece um preço muito razoável a pagar. Ademais, as estimativas não levam em conta os benefícios da redução das mudanças climáticas, incluindo o de evitar sofrimento humano incalculável.
Portanto, acho que é um equívoco dizer que um acordo global para combater as mudanças climáticas teria consequências econômicas negativas. Por outro lado, sabemos que quanto mais tempo esperarmos para agir, mais alto será o custo da ação no futuro.

Por que o conjunto impressionante de conhecimentos científicos acumulado pelo IPCC ainda não foi capaz de empurrar tomadores de decisões em todo o mundo na direção da ação efetiva contra a mudança climática?

Alcançar acordos globais quase sempre requer muitos anos, até décadas. Embora eu tivesse preferido contar já há muito tempo com um pacto global com obrigações legais para reduzir as emissões de gases do efeito estufa, não estou surpreso com o ritmo das negociações.
Não acredito que um pacto internacional seja o único meio pelo qual possamos combater as mudanças climáticas. Me sinto encorajado pela consciência crescente de governos locais e empresas de que eles precisam agir a esse respeito. Estados da costa oeste dos EUA e a Colúmbia Britânica [no Canadá], por exemplo, firmaram um pacto para coordenar políticas relativas às mudanças climáticas. E mais empresas estão tomando consciência dos riscos que enfrentam se nada for feito em relação às mudanças climáticas. Quando essa consciência alcançar uma massa crítica --e creio que estamos chegando a esse ponto--, veremos uma poderosa força em favor da ação vinda do setor das empresas.

Um relatório lançado nos EUA, "Risky Business" (negócio arriscado), defende a tomada de ações imediatas contra as mudanças climáticas, usando o raciocínio das seguradoras para convencer líderes empresariais a engajar-se nesse esforço. O senhor acha que esse é o caminho certo para superar a polarização entre os conservadores ("céticos") e progressistas ("crédulos")?

O relatório é uma avaliação séria dos riscos que setores empresariais chaves nos EUA vão enfrentar se não fizermos nada para impedir as mudanças climáticas. A partir do momento em que os empresários compreenderem o custo de não fazer nada, eles podem tornar-se uma força vital em favor de mudanças ao nível governamental.

O sr. considera superada a controvérsia em torno do "Quarto Relatório de Avaliação" (AR4) e suas fontes em artigos que não passaram por revisão científica? Quais são as consequências desse episódio para a reputação do IPCC?

A crítica fez do IPCC uma organização mais forte, aberta. Primeiro, a direção do IPCC promoveu uma conscientização entre os autores com relação ao controle de qualidade de fatos relatados. Em segundo lugar, o processo de revisão foi intensificado. Mais especialistas participaram da revisão de textos provisórios, o número de editores aumentou e seu trabalho foi intensificado. E os governos que constituem o IPCC agora têm mais consciência de suas responsabilidades na garantia de qualidade.
Também é importante observar que a "literatura cinza" [que não passa por revisão científica] é um componente importante dos dados relativos às mudanças climáticas. Ela inclui relatórios de governos, da indústria, de instituições de pesquisa, organizações internacionais e outras como o Banco Mundial, a Agência Internacional de Energia, a OCDE etc.

O sr. está satisfeito com a resposta dada ao mais recente relatório do IPCC pelo público e pelos responsáveis por formular políticas públicas?

A recepção tem sido positiva, ressaltando a distância que o mundo já percorreu entre discutir os aspectos científicos das mudanças climáticas e discutir o que fazer frente a elas.
Existe 95% de probabilidade de a influência humana ter sido a causa dominante do aquecimento observado desde meados do século 20. O relatório também chamou a atenção para potenciais soluções para mitigar e adaptar-se às mudanças climáticas.
Precisamos de um diálogo mais robusto sobre como implementar essas soluções.

O ritmo das mudanças climáticas parece ser lento, como indicam as flutuações dos últimos 15 anos. Isso não nos dá tempo suficiente para desenvolver fontes energéticas alternativas e concentrar os esforços de redução de emissões para depois de 2050?

O ritmo das mudanças climáticas não diminuiu. Se você olhar para o sistema climático inteiro, e não só as temperaturas superficiais, o que verá é um aquecimento contínuo e acelerado.
A atmosfera e os oceanos se aqueceram, a quantidade de neve e gelo diminuiu, o nível do mar subiu e as concentrações de gases-estufa aumentaram.
A Organização Meteorológica Mundial confirmou recentemente que 13 dos 14 anos mais quentes da história ocorreram no século 21. A década 2001-2010 foi a mais quente já registrada.
É verdade que o índice de aquecimento superficial entre 1998 e 2012 é mais baixo que o índice desde 1951. Mas pausas como essas já ocorreram no passado, apenas para serem seguidas por elevações de temperatura acentuadas. Portanto, não houve pausa no aquecimento total. Logo, não temos tempo adicional para implementar soluções.
Sabemos que as mudanças climáticas já têm efeito sobre a agricultura, a saúde, os ecossistemas, os recursos hídricos e os meios de subsistência. O aspecto que chama a atenção nos impactos é que estão correndo dos trópicos aos polos, de ilhas pequenas a grandes continentes e dos países mais ricos aos mais pobres. E temos sinais precoces de que o sistema de recifes de corais e o sistema ártico estão passando por modificações irreversíveis.

Tradução de CLARA ALLAIN

Matéria publicada originalmente na Folha de S.Paulo.