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Cúpula de Prefeitos: Planejamento e gestão para construir cidades mais sustentáveis e igualitárias

Em debate mediado pelo presidente do WRI (World Resources Institute), Andrew Steer, os integrantes da Cúpula de Prefeitos, realizada ontem (9), no Rio de Janeiro, foram provocados a apresentarem suas ‘receitas’ para tornar suas cidades ambientalmente responsáveis e socialmente mais igualitárias. Ken Livingstone (Londres), Jaime Lerner (Curitiba), Mary Jane Ortega (San Fernando/Filipinas), Enrique Peñalosa (Bogotá), Sam Adams (Portland/EUA) e o anfitrião e prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, enfrentaram cenários diferentes entre si, mas utilizaram soluções semelhantes para enfrentar a burocracia e a oposição.

Liderança, gestão e planejamento foram as diretrizes que guiaram estes líderes para transformações reais. Para que o planejamento seja traçado, porém, é necessário construir o objetivo que se deseja alcançar com clareza, comentou o moderador Andrew Steer, que lançou a questão para o debate: “quando você se tornou prefeito, qual foi a visão que idealizou para a sua cidade?”

Mesmo sob forte oposição de interesses contrários, os ex-prefeitos não desistiram. “O mais importante é ter em mente que a sua visão não pode ser imposta aos seus cidadãos e sim fazer com os seus cidadãos construam a visão junto com você”, declarou Mary Jane Ortega, eleita três vezes prefeita de San Fernando. Pelo trabalho de empoderamento de mulheres e pela estratégia de desenvolvimento da cidade, recebeu um prêmio da Organizações das Nações Unidas. “Em San Fernando, mapeamos que as pessoas gostariam de viver em uma cidade mais saudável, com pessoas saudáveis mental, espiritual e fisicamente”, explicou Mary Jane.

Eduardo Paes tem a importante missão de construir um dos maiores legados públicos que a cidade do Rio já teve, com a realização dos Jogos Olímpicos. “Diria que a renovação do Porto Maravilha é um símbolo do que queremos para nossa cidade: que a cidade esteja mais próxima das pessoas; que não percam muito tempo em deslocamentos e vivam mais a cidade”, declarou. Para o prefeito do Rio, um passo importante para a construção da visão comum de cidade é encontrar os pontos fracos. “Temos que ter clareza para onde queremos ir, de modo estratégico. Precisa-se definir quais são os problemas, a partir de dados, quando existem. Assim temos ideia de o que se deve lidar”, finalizou.

Com o apoio dos dados, Ken Livingstone assumiu a prefeitura de Londres e sabia que algo urgente precisava ser feito para combater os congestionamentos da capital inglesa. Decidiu, com apoio da equipe técnica municipal, implementar o ousado programa de taxação de congestionamento (congestion charging) em áreas centrais. “Se eu não resolvesse o problema do congestionamento, sabia que Londres poderia perder seus residentes para Paris, Bruxelas ou outras capitais globais”, explicou. A oposição foi dura, mas os resultados atuais mostram que o esforço valeu a pena: a cidade garantiu um aumento de 14% mais usuários no transporte coletivo. “O congestion charging ocasionou uma grande ascensão no uso do transporte coletivo. Se eu tivesse que escolher, eu faria isso de novo”, finalizou.

A ousadia acompanhou também Enrique Peñalosa. O ex-prefeito de Bogotá implantou o emblemático sistema BRT TransMilenio, que hoje transporta 2,2 milhões de pessoas por dia em 113 km de corredores de ônibus. Também liderou uma revitalização em ampla escala de espaços públicos e parques urbanos e construiu mais de 250 km de ciclovias. “Quando você dá mais espaço para o carro do que para pessoas, você passa a mensagem que os carros são mais importantes que as próprias pessoas, e não é isso que queremos. Pela primeira vez, mudamos essa lógica. Tentamos construir uma cidade mais justa e sustentável”, explicou. “Durante minha gestão quisemos dar mais felicidade às pessoas, mas é um conceito muito relativo, então partimos para a equidade e construir uma cidade onde todos se sintam iguais e sintam satisfação de andar nas ruas”, declarou Peñalosa.

Em Portland a transformação também foi profunda. Sam Adams foi um dos principais responsáveis por levar a cidade ao caminho sustentável durante seu mandato (2009 a 2012). O atual Diretor da Iniciativa Climática do World Resources Institute (WRI) aprovou metas ambiciosas, claras e mensuráveis que guiaram a cidade pelo caminho de baixo carbono. “Traçamos prioridades. Focamos em educação de qualidade; passamos à prosperidade; e depois gestão e meio ambiente”, explicou ao público. Mas para isso, foi necessário um plano de gestão municipal. “Reunimos diferentes níveis de governo para fazer reduções racionais nos gastos públicos. Sofremos forte oposição e fomos odiados por um tempo pelas mudanças que propusemos”, contou Adams. Em relação ao transporte, foram implantados 120 km de ciclovias.

O segundo representante brasileiro na Cúpula, Jaime Lerner, é um ícone de gestão e inovação no país e no mundo. Lerner contou ao público que ver os projetos não andarem o deixava extremamente incomodado. “Ficava realmente frustrado ao ver que as coisas não aconteciam, e comecei a pensar e estruturar uma visão muito clara do futuro com o ímpeto de cumprir o objeto pouco a pouco, passo a passo”, destacou Lerner. O ex-prefeito de Curitiba, que idealizou o BRT, salientou que, sem planejamento, dificilmente teria conseguido implementar na década de 1970 ações que são copiadas até hoje. “Vida, trabalho e mobilidade devem andar juntos – assim como a comunicação com a população e a interlocução com a classe política”, aconselhou. Para ele, o ponto-chave é começar: “eu sempre preferi trabalhar com pessoas que assumam riscos. O importante é começar. Considero o começo como 50% do que precisa ser feito”, finalizou Lerner.

Matéria originalmente publicada no portal EcoBrasília