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Arquitetura e Cidade para Crianças: projeto estimula a relação afetiva das crianças com a vida urbana

A sensibilização dos adultos para uma cidade mais humana é um motivador para as arquitetas e urbanistas Amanda Tiedt e Fabíola Cordeiro. Depois de fundarem o Coletivo Sinergia Urbana para trabalhar com intervenções urbanas e instalações efêmeras, a dupla sentiu falta de um projeto que sensibilizasse as crianças a participar da vida urbana de forma ativa e se sentissem parte do seu bairro e da sua cidade. A pesquisa de referências e projetos com esta temática iniciou em outubro de 2016, logo após lerem sobre o projeto Arquitectura para Niños que existe na Espanha, e sobre a HABITAT III que aconteceu em Quito (Equador) e definiu a nova agenda urbana mundial, que entre outras coisas, prioriza a qualidade de vida urbana e segurança das crianças.

A partir das pesquisas e dos estudos de caso, as arquitetas perceberam que existiam dois caminhos diferentes e complementares para incluir as crianças na vida urbana: realizar um trabalho de sensibilização e incluir os pequenos no planejamento urbano através de processos participativos simplificados. Neste contexto, o projeto “Arquitetura e Cidade para Crianças” optou por dar os primeiros passos a partir de oficinas que incentivassem uma relação afetiva das crianças com vida urbana, auxiliando na compreensão do seu direito à cidade, valorizando o patrimônio cultural edificado, e proporcionando o entendimento da  relação entre a natureza e o que foi construído pelo homem.

As arquitetas valorizaram a co-criação e articularam a rede criativa local para construir e participar do projeto. Um grupo de teatro e uma consultora na área ambiental desenvolvem o módulo “Meio Ambiente” com as crianças, enquanto outros parceiros documentam o projeto e abrigam as oficinas abertas à comunidade. Isso proporciona que a experiência das crianças seja mais atrativa, dinâmica, inclusiva e, que os temas sejam explorados através de diferentes abordagens (teatro, desenhos, pinturas, jogos…).

Os módulos que formam a oficina são organizados e conectados para que formem uma jornada de aprendizagem única de quatro horas, com experiências significativas, colaborativas e criativas. Todas as oficinas começam pelos acordos coletivos, a fim de que as crianças construam uma dinâmica de grupo e sejam co-responsáveis pelo qualidade tempo que passam juntas.

O primeiro módulo se chama “Minha Casa” e é um momento onde as crianças brincam de arquiteto, com pranchetas e lapiseiras, para desenhar a sua casa em planta baixa, em corte, ou fachada. Este módulo trabalha a percepção espacial e entendimento de que cada casa é muito especial e particular, a partir de como as famílias interagem e vivem nos espaços.

O módulo “A Cidade” faz com que as crianças compreendam a  diferença  entre  espaços  públicos e privados, interiores  e  exteriores;  entre uma cidade feita para carros e feita para pessoas, além de entenderem a  relevância  do  patrimônio  histórico  e  o  papel  que  a   arquitetura  têm  no  cotidiano  das cidades. Para isso, é utilizado um jogo da memória colaborativo gigante e desenvolvido pelas arquitetas. No mesmo módulo, é feita uma pintura coletiva a partir do audiolivro “A Cidadela”, que conta a história do SESC Pompéia, de Lina Bo Bardi (disponível gratuitamente na internet).

Por fim, o módulo “Meio Ambiente” desenvolve conhecimentos sobre permacultura urbana e a produção de lixo nas cidades. As crianças exploram, preferencialmente, os espaços externos, onde plantam brotos e sementes em casca de ovos, produzem bombas de sementes, brincam com uma caixa mágica de resíduos que desperta para o tempo de decomposição de cada material, e refletem sobre alternativas para tornar a vida na cidade mais sustentável.

Ao final das oficinas as crianças levam para casa uma cartinha para sua família com o objetivo de gerar conversas significativas entre crianças e adultos. Inclusive, é entregue aos participantes um botom com o título oficial de “Cuidador da Cidade”, que gera co-responsabilidade sobre os espaços da cidade, especialmente no entorno da casa e da escola, que é onde elas podem interferir mais diretamente

APRENDIZADOS E RESULTADOS

As oficinas em Blumenau priorizam o aprendizado pelo descobrimento e exploram espaços com atividades lúdicas e práticas para crianças de 06 a 10 anos, com turmas de no máximo 25 participantes. Este ano já aconteceram nove oficinas, além de diversas rodas de conversa para adultos, a fim de que compreendessem a importância do projeto e os impactos positivos na vida das pessoas e da cidade.

A ideia é que as crianças parem de ver o espaço urbano através de uma janela (da casa, do carro ou do ônibus), para experimentar e explorar cada canto da cidade com uma de suas habilidades mais incríveis: a curiosidade.

A receptividade das crianças é positiva, especialmente nas oficinas realizadas nas escolas, onde conseguem aprender e explorar um espaço comum do dia a dia de forma inusitada. A curiosidade e a espontaneidade única das crianças proporciona a construção de um aprendizado significativo, e com um grande potencial de transformação a médio e longo prazo.

PRÓXIMOS PASSOS

Em 2017 o projeto “Arquitetura e Cidade para Crianças” teve o financiamento do Fundo Municipal de Apoio à Cultura de Blumenau. O apoio recebido contemplou a compra de materiais, a realização de duas oficinas abertas à comunidade, e outras seis em escolas públicas do município.

Outras atividades como rodas de conversa para adultos e oficinas em museus da cidade, apesar de não estarem incluídas no financiamento recebido, foram organizadas de forma voluntária pelas arquitetas e, igualmente, sem qualquer custo para comunidade.

Para 2018 fica o desafio de encontrar novos apoiadores para dar continuidade ao projeto. Diferentes jogos,  e um guia de bolso com atividades e conteúdos para a família sobre o tema “Cidade para Crianças”, são algumas das ideias que ainda demandam recursos para saírem do papel.

Acesse o material de pesquisa e estudos de caso utilizados para desenhar e desenvolver o projeto: Referência e estudos de caso.

Matéria originalmente publicada no portal ArchDaily Brasil